segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Darwin e heresias



Nilton Bonder

Reportagens sobre o criacionismo neste bicentenário de Darwin expuseram visões inquietantes da religião.

A tentativa de corromper o intelecto humano para conter crenças e superstições é o maior desfavor que se possa fazer à religião e à espiritualidade, uma verdadeira heresia.

A leitura fundamentalista do texto bíblico não pode sequer ser considerada literal, mas política. Baseia-se mais no corporativismo e no monopólio do absoluto do que em qualquer compromisso com a verdade.

Uma corrupção inaceitável ferindo preceitos do próprio texto que condena a superstição e a feitiçaria — o desejo de manipular a realidade para conter uma vontade particular. Essa realidade particular, esse mundo partidário e incontestável, não se sustenta na experiência dos próprios fiéis exigindo esforço em práticas para obscurecer discernimento e sensibilidade.

Para tal faz-se mau uso da fé que acaba em mãos humanas servindo a pretensões de controle e poder.

O texto de Gênesis diz literalmente que o Universo não se fez de uma vez. Eras sucederam a novas eras.

Há um trabalho de separar luzes de escuridão, águas de cima e águas de baixo. Há expansões e contrações, secos e molhados. Só no quarto dia é constituído o luzeiro maior que governa o dia e o luzeiro menor que governa a noite. Se o sol não existia nos primeiros três dias, então de que dias estamos falando? Com certeza, não se trata do período de rotação completa da Terra sob seu eixo ou o tempo de 24 horas.

“Dia” quer dizer um “período” e por seis períodos demorou para ser formado este mundo como nós o conhecemos.

Este Universo existe há 5.769 anos (desde Adão) e mais sete eras. Seis eras de profunda instabilidade e transformação — de trabalho — e uma era de adaptação — de pausa. Adão representa a matriz do homem moderno que rompe com a ancestralidade primitiva. É o homem que conhece através de sua consciência a vergonha, a responsabilidade, a culpa, a solidão, a morte e noção de Deus. Adão e Eva são os pais de nossa cultura. A heresia não está no carbono 14 e sua capacidade de datar o passado, mas na leitura doutrinária do texto. Para um bom literalista o texto sequer diz que a Criação foi única. Be-reshit, a palavra que abre o texto do Gênesis, tem tradução literal “Num Início”, indicando que outros mundos podem ter existido anteriormente. Há na Bíblia elementos claros de evolução já que a criação é gradual: ervagem, árvores, peixes, répteis, aves, répteis terrestres, quadrúpedes e, por último, o humano. Certamente distinto de Darwin para quem a evolução se trata de um processo mecânico de ajustes na história das espécies, enquanto que a Bíblia pressupõe uma intencionalidade divina.

Mas a Bíblia não tem pretensões de ser um manual eterno da ciência, e sim da consciência. Sua grande revelação não é como funciona o Universo e a realidade, mas como se dá a interação entre criatura e Criador. Seu tema maior é outro: a revelação de que o Universo tem uma identidade, um Self. Essa é a primeira palavra dos Mandamentos — “Eu”. Da mesma maneira que nós em nossa superfície somos uma colcha de retalhos — aglutinando discrepâncias e contradições — e mesmo assim temos um “eu” que a tudo integra, também o Universo com todas as suas aparentes injustiças e descontinuidades também tem um Self. Assim como o nosso “eu” é invisível e não verificável, este “Eu” do Universo só se faz perceptível no que Martin Buber cunhou como o encontro do “Eu-Tu”. É possível que tudo que reconheça em si um “eu”, por mais ilusório e distorcido que este seja, percebe este Tu cósmico. Trata-se do encontro do “eu” particular com o “Eu” do todo. O Self da parte que se vê responsabilizado diante do Self do todo e anseia tê-lo como norte, como esperança. Mas esse encontro será sempre de ordem transcendental e nunca de forma tacanha como a leitura fundamentalista propõe.

Talvez a insistência em prosseguir com estas leituras heréticas realmente consiga provar Darwin como errado. Isso porque a sobrevivência de visões tão retrógradas acabará cabalmente demonstrando a existência não só de processos bem-sucedidos de evolução, mas também de involução.

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