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quarta-feira, 18 de abril de 2012

11 fardos de um pastor que leva o evangelho a sério



Nunca fui de me queixar ou me fazer de vítima. O post que ora escrevo tem o objetivo de dar voz a minha realidade e de tantos outros amigos que são companheiros de luta há anos na causa da fé e são pessoas íntegras, inteligentes e acima de tudo apaixonadas.

Algumas experiências aqui são pessoais, outras ouvi. Para quem pensar que estou em lua de fel com o povo que lidero, digo o seguinte: você não entendeu nada.

Vamos aos fardos…

1. Ter de explicar a toda hora que sua igreja não é a mesma que a do Edir Macedo, do Valdemiro Santiago e assemelhados.

2. Ter de suportar a cara de desconfiança da atendente da loja quando pergunta a sua profissão e você responde: “pastor”. A gente tem a impressão que alguém escreveu na nossa testa sem a nossa permissão: “vigarista”.

3. Ser o bode expiatório dos problemas que as pessoas estão passando. Problemas que se arrastam muito tempo acabam sendo debitados na conta do pastor. A mulher foi traída pelo marido e depois de pensar um pouco chega a conclusão que a culpa do “angu” é do pastor e decidem os dois sair da igreja. O pastor era muito fraquinho!

4. Expectativas de que os filhos do pastor, não vivam sua infância e adolescência e sejam seres super dotados espiritualmente que oram, pregam e dão conselhos como um obreiro veterano.

5. Desejo que o casal pastoral sejam ambos, bem humorados, sorridentes, extrovertidos e que causem boa impressão a primeira vista.

6. Expectativa de que o pastor reúna em si todos os dons relatados na Bíblia. Que seja teólogo como foi Paulo, excelente pregador como foi Apolo, bom ouvinte como foi Barnabé e competente dirigente de música como foi Asafe, e de vez em quando como Jesus, entreter as crianças na Escola Bíblica Dominical.

7. Ter de ouvir brincadeiras tipo: “cansado do que, se pastor só trabalha domingo?”. Infelizmente as pessoas não veem que a maior parte do trabalho do pastor não é feita diante dos olhos dos membros da igreja. Aconselhamento nos lares, visita a doentes, discipulado um a um, preparo para estudo e pregação, planejamento de eventos são todas atividades que passam despercebidas dos olhares do membro comum da igreja.

8. Não ter a chance de estar em um dia ruim, chorar, se sentir ferido ou abandonado. Eu conheço uma nuvem de pastores que tomam omeprazol direto porque ninguém lhes dá o direito (nem eles mesmos) de expressarem o que estão sentindo. Um dia um amigo foi se abrir com um diácono da igreja e o diácono chamou sua atenção: “Que é isso pastor, o senhor não pode se sentir assim!.

9. A crença injusta e precipitada de que se há qualquer rumor sobre a vida pessoal do pastor deve ser verdade. O famoso bate e depois pergunta. Havia um boato em uma certa igreja, uma conversa de que o pastor andava com outra mulher, mas o que ninguém sabia ou deu-se conta é que era a mesma mulher, só que ela havia pintado o cabelo de loiro.

10. Não aceitar que o pastor tire férias, afinal Deus não descansa, então o pastor não deveria descansar já que ele tem ligação direta com o “homem lá de cima”. Além disso como um pastor pode descansar sabendo que milhares estão indo para o inferno…

11. O pensamento de algumas pessoas de que o lider espiritual, não tem sentimentos, nem expectativas de retorno nos relacionamentos. Muitas são as vezes em que o pastor não é visto como amigo pois habita o panteão das idealizações das pessoas o que certamente torna a vida dele um pouco mais difícil. As pessoas se sentem a vontade para agirem como em nenhum outro relacionamento: descompromissadas em palavras e ações. Bate que o pastor aguenta!

Sim há um outro lado que talvez você nunca pensou. Seu pastor também é gente.

Um abraço quebra costelas.

O discípulo gaudério.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Um demônio a beira de ser salvo




  

Notus era um demônio comum como todos os outros.

Ele adorava possuir leitões, e em seus corpos vê-los precipitarem em poças de lama, correrem em meio ao cerrado ou gritarem e girarem malucos pelo chiqueiro afora. Alguns conseguiam quebrar as cercas e fazerem uma verdadeira algazarra. O que fazia Notus morrer de rir.

Na maioria do tempo, Notus vagava por lugares desertos e secos até encontrar um corpo onde habitar. Certa vez ficou quinhentos e sessenta e três amargos anos em busca de um corpo. Mas geralmente em uma ou duas décadas encontrava um pobre coitado qualquer.

Quando os diabos se apresentavam perante Belzebu para adorá-lo, Notus pertencia a uma casta distinta. Os demônios, a grande maioria deles, adoravam Lúcifer, admiravam-no e tinham-no como modelo de maldade e força. Assim todos eles eram quase que apaixonados por Belzebu. Eles amavam Belzebu, e Belzebu os odiava.

Notus e sua legião eram diferentes. Eles odiavam Belzebu. Se pudessem o matariam. Apareciam forçados naquele dia para beijar a mão do Diabo mor, e eram forçados a lamber as solas dos pés daquele nojento Anjo caído. Eles grunhiam, gritavam, fugiam e causavam a maior baderna. Lúcifer apelava para gnomos e titãs que traziam Notus e sua legião a seus pés e ali eram alvos de todo tipo de humilhação. Lúcifer adorava aquele ritual e ver, por fim, Notus e seus comparsas o adorando. Belzebu os adorava.

Passada aquela agonia, Notus, deixava o quinto dos infernos e voltava para o mundo dos humanos, para dar seguida às suas maquinações.

Certa vez entrou no corpo de um jogador de futebol, em pleno maracanã. O camarada driblou quase que o time adversário inteiro e marcou um gol de placa. No dia seguinte a mulher do jogador estava fazendo amor com o próprio cunhado, tudo graças ao dedo de Notus.

Já outra vez ele levou um garoto de rua a consumir crack até sua alma deixar o corpo. Outra vez ele fez com que um fiscal da receita, um senhor já idoso, chegasse a uma propina que ninguém jamais sonhou. Foi no mesmo dia que o seu neto foi diagnosticado com leucemia. E Notus se contorcia de prazer maligno.

Mas nem sempre Notus tinha tanto sucesso assim. Uma noite quando ele já tinha por certo o suicídio de uma menina, vítima de estupro, um padre apareceu na jogada e o fez correr daquela comarca. A menina foi salva.

Num fim de uma tarde de verão, já tinha convidado toda a corja para celebrarem mais um desvio de verba pública por um deputado federal, uma verba destinada a hospitais infantis, quando o homem caiu em prantos arrependido e desfez a maracutaia. Em contrapartida Notus não conseguiu efetuar seu plano para que a filha do político fosse atropelada quando saísse de uma festinha na Asa Sul. O lugar estava lotado de anjos e houve uma grande bate boca entre anjos e demônios, contratos foram lidos e relidos, cláusulas foram lembradas. Tudo terminou numa grande pancadaria. Os demônios saíram com uma pequena batida de carro e ninguém morreu. Notus foi ridicularizado por seus companheiros.

Depois ele descobriu que a empregada do tal político era uma velhinha de uma igreja pentecostal que intercedia pelo patrão.

Notus começou então a infernizar a vida da velhinha. Conseguiu fazer com que o marido, o velho, levasse uma garota de programa para um motel. Mas o velho não deu no coro e a investida não deu em nada. Mais uma vez ele foi ridicularizado.

Foi aí que Notus descobriu que o filho daquela senhora, o Cléber, tinha uma queda por drogas. Juntos eles provaram maconha, cocaína, heroína e todos tipos de chá de cogumelo conhecidos em Brasília.

Numa dessas viagens Cléber viu Notus.

(Continua...)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A porno-Corinto

  
Situada no istmo de mesmo nome, no sul da Grécia, Corinto era, no início do primeiro século, a cidade mais antiga, mais importante, mais rica, mais comercialmente próspera, mais populosa (250 mil habitantes) e mais obcecada por sexo da Europa Oriental. Ali se realizavam os Jogos Ístmicos, quase tão importantes quanto os Jogos Olímpicos, que eram mais antigos e surgiram em Olímpia, mais a oeste. Por ser uma cidade portuária (um porto no mar Egeu e outro no mar Mediterrâneo) e o elo entre Roma e o Oriente, Corinto abrigava uma grande mistura de raças, línguas e culturas (gregos, latinos, sírios, asiáticos, egípcios e judeus), de classes sociais (escravos e libertos, burgueses e pobres) e de profissões (investidores, mercadores, ambulantes, marinheiros, filósofos, ex-soldados, atletas e “promotores de todas as formas de vícios”).
Considerada a capital da licenciosidade, Corinto era notável por sua independência moral. À semelhança dos hebreus na época dos juízes, cada um fazia o que bem desejava (Jz 21.25). Não havia a quem prestar contas nem leis para obedecer, senão a lei dos desejos. Os impulsos sexuais eram um fenômeno biológico como a fome e, portanto, deveriam ser satisfeitos.
Em Corinto havia muitos templos. No templo dedicado a Afrodite, a deusa do amor (a mesma Vênus dos romanos), havia mil prostitutos e prostitutas, que ofereciam seus serviços ao pôr-do-sol. No templo dedicado a Apolo, o deus que representava o ideal de beleza masculina, havia “estátuas de Apolo nu, em diversas posturas, que exibiam sua virilidade, inflamavam seus adoradores masculinos a prestarem devoção por meio de demonstrações físicas com os belos rapazes a serviço da divindade” (David Prior, “A Mensagem de 1 Coríntios”). O problema das tais “imoralidades sexuais” (1Co 7.2) entre os coríntios era tal que um dos verbos gregos que significava “fornicar” era “corintizar”, ou seja, viver uma vida coríntia. 
Esse descaso com a moral sexual vinha de longe. Demóstenes, o famoso orador grego (384-322 a.C.), escreveu: “Temos amantes para nos regozijarmos com elas, depois escravas compradas para cuidar de nossos corpos e, finalmente, esposas, que devem conceder-nos filhos legítimos e estão encarregadas de supervisionar todos os nossos misteres domiciliares”. Trezentos anos antes, na mesma época dos profetas Daniel e Habacuque (600 a.C.), Safo, a não menos famosa poetisa grega, teria levado várias jovens sob sua influência à prática do lesbianismo. Por essa razão, e por viver em Metilene, capital da ilha grega de Lesbos, próxima ao litoral da Turquia, chama-se lésbica (lésbia ou lesbiana) a mulher homossexual. “Tanto no mundo grego como no mundo romano, a parceria homossexual entre um homem mais velho e um jovem era considerada parte da educação do rapaz”, lembra Amy Orr-Ewing no livro Por Que Confiar na Bíblia?.
Foi em sua segunda grande viagem missionária que Paulo começou a evangelizar a cidade de Corinto (51 d.C.). Muitos convertidos renunciaram sua vida pregressa e tornaram-se novas criaturas em Cristo (2Co 5.17). Entre eles havia imorais, adúlteros e homossexuais passivos e ativos, como vemos na Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios (6.9-11), escrita no ano 55. Para se referir aos homossexuais ativos, o apóstolo usa a palavra grega “arsenokoitai”, aquele que toma a iniciativa, traduzida também por sodomita (por causa do que aconteceu em Sodoma, Gn 19). Para se referir aos homossexuais passivos, usa a palavra grega “malakoi”, aquele que se permite usar, traduzida também por efeminado. Para Calvino (1509-1564), os “malakoi” são “aqueles que, enquanto não podem tornar-se prostitutos publicamente, revelam quão impudicos são no emprego da linguagem ignóbil, no maneirismo e vestuário femininos, bem como em outros meios de atrair a atenção”.
Esse trecho da Carta de Paulo aos Coríntios é a melhor passagem das Escrituras para mostrar a possibilidade de mudança de comportamento mediante uma experiência autêntica de conversão, não importando o estilo de vida anterior.
Corinto foi três vezes destruída: em 146 antes de Cristo pelos exércitos romanos, em 501 por um terremoto, e em 1858 por outro terremoto, bem mais devastador que o primeiro. Hoje, Corinto não passa de uma aldeia.

Nota
Artigo publicado na revista Ultimato 325 (julho-agosto/2010).